domingo, 6 de outubro de 2019

Currículo por Competências


Currículo por Competências

Constâncio Tsambe[1]
Introdução
O “currículo por competências” é o meio pelo qual a pedagogia das competências se institucionaliza na escola, com o objectivo de promover o encontro entre formação e emprego. O fundamento do ‘currículo por competências’ é a redefinição do sentido dos conteúdos de ensino, de modo a atribuir sentido prático aos saberes escolares, abandonando a preeminência dos saberes disciplinares para se centrar em competências supostamente verificáveis em situações e tarefas específicas. Essas competências devem ser definidas com referência às situações que os alunos deverão ser capazes de compreender e dominar. Somente após essas definições é que se seleccionam os conteúdos de ensino. Com base neste pressuposto, elaborou – se o presente artigo com objectivo de demostrar as teorias que subjazem este modelo moderno de ensino e fundamentalmente, analisar os procedimentos da construção do currículo por competências. 










Ao discutir a elaboração de Currículos por Competências no ensino profissionalizante, Jiménez (1995) compreende que as competências definidas como referências para o currículo correspondem a unidades para as quais convergiriam e se entrecruzariam um conjunto de elementos que as estruturam (Conhecimentos, Habilidades e Atitudes/Valores – CHA).
Considerar a competência como unidade e ponto de convergência entre conhecimentos, habilidades e atitudes/valores, congrega a ideia de que a competência constitui uma unidade e de que os elementos isolados perdem esse sentido. Procuro indicar neste artigo duas características que se encontram implícitas em qualquer definição de competência:
1.    Por um lado, centrar-se no desempenho;
2.    Por outro, recuperar condições em que este desempenho é relevante, ou seja significativo.
O desempenho é compreendido como a expressão concreta dos recursos que o indivíduo articula quando realiza uma actividade. Uma formação que persiga o desenvolvimento de competências para o desempenho pressupõe seleccionar conhecimentos dos quais os estudantes necessitam para aplicar em esquemas operatórios, para entender o que significam e como funcionam, facilitando a acção em situações diversas. Isto implica deixar de fazer a separação entre o saber e o saber – fazer para centrar o esforço em resultados de aprendizagem nos quais se atinge uma integração entre ambos.
Incorporar condições nas quais o desempenho é relevante remete às condições em que se promove e se demanda que o indivíduo ponha em jogo seus recursos: (CHA). Essa concepção requer que a elaboração dos currícula ocorra por contacto directo com as situações de trabalho, Por outras palavras, provavelmente mais simples, os curricula, devem ser desenhados em função das necessidades do mundo de emprego. E não pela vontade, que seja Política, Pedagógica, Filosófica ou Sociológica, dos técnicos afectos nos sectores onde se desenham as politicas educacionais. Portanto, exige – se que um dos procedimentos prévios à elaboração curricular, pelos Ministérios de tutela, seja a Análise dos Processos de Trabalho para os quais se pretende formar. Desta análise, como apontam TANGUY (1997, p. 85) “resultam os documentos referenciais. chamados de referenciais de diploma, para a escola, e de referenciais de emprego ou de actividades profissionais, para a empresa” na qual o formando irá trabalhar.
Para Análise dos Processos de Trabalho (APT), ainda que exista uma variedade de metodologias, estas se originam de três teorias principais:
1.    A conductivista,
2.    A funcionalista e
3.    A construtivista.
A Teoria Conductivista compreende a competência, sobretudo, como uma habilidade que descreve o que a pessoa pode fazer. Assim definida, as competências são características que diferenciam um desempenho superior de um desempenho médio ou pobre. Por isto, a análise parte da pessoa que faz bem seu trabalho de acordo com os resultados esperados. Esta é a base de análise do alto desempenho.  
A Teoria Funcionalista se origina no pensamento funcional da sociologia, tendo sido acolhida pela nova teoria dos sistemas sociais. Por essa teoria, a análise funcional não se refere somente ao sistema em si, mas também à sua relação com o e em torno do mercado, tecnologia, relações sociais e institucionais etc....A Análise do Processo de Trabalho é feita estabelecendo-se uma relação entre problemas e resultados. As competências são deduzidas das relações entre resultados e habilidades, conhecimentos e atitudes dos trabalhadores.
Segundo DELUIZ (2001, p. 78) “…esta foi a perspectiva adoptada pelo Ministério da Educação no Brasil para a elaboração dos referenciais curriculares nacionais do Ensino Técnico Profissional”. Estes ficaram organizados em matrizes ou quadros de competências por áreas profissionais, nas quais se definiram funções, subfunções que caracterizam o processo de trabalho; competências e habilidades (saber-fazer) requeridas pelos trabalhadores; bases instrumentais, científicas e tecnológicas, correspondentes aos conteúdos de ensino ou ‘saberes’ necessários ao desenvolvimento das respectivas competências e habilidades. Maia adiante DELUIZ (2001, p. 88) esclarece que “as unidades de aprendizagem, preferencialmente autónomas e independentes, organizadas como Módulos, teriam esses parâmetros como base”. À conclusão de cada módulo poder-se-ia adquirir um título que habilitaria o trabalhador ao exercício de determinadas funções/tarefas e/ou subfunções/subtarefas.
A Teoria Construtivista desenvolvida por Bertand Schwartz, na França, “tem como finalidade evidenciar as relações mútuas e as acções existentes entre os grupos, em torno das situações de trabalho e as situações de capacitação”. (Mertens, 2005, p. 37). Ou seja, as competências não são deduzidas à parte das necessidades e propostas formativas. O método rechaça a desfasagem entre a construção das competências e a implementação de uma estratégia de capacitação. Com isto, as competências não são deduzidas somente a partir da função ocupacional, mas concedem igual importância à pessoa, aos seus objectivos e às suas possibilidades.
Os referenciais curriculares explicitam os elementos que deverão compor o currículo para se lograr o desenvolvimento das competências requeridas pelo trabalho.
A metodologia de construção do referencial de diploma: enuncia-se a competência global visada (em termos de ser ‘capaz de’); depois, as capacidades gerais implicadas nessa competência global (que se exprimem geralmente por quatro verbos de acção ou sinónimos: informar-se, organizar, realizar, comunicar); depois, as capacidades e competências terminais e, enfim, os ‘saberes’ e o ‘saber-fazer’ que à competência global são associados. Ao termo desse conjunto de procedimentos, os referenciais de diplomas apresentam-se, à primeira vista, sob forma de quadros que relacionam, de um lado, as funções e actividades principais descritas no referencial do emprego com as capacidades e competências terminais; de outro, as competências terminais com os ‘saberes’ e ‘saber-fazer’ tecnológicos associados. (FRIGOTTO at all, 2005, p. 36)
Críticas à tamanha racionalização pedagógica não são raras. MALGLAIVE (1994, p. 55), argumenta que “os ‘saber-fazer’, evidência explícita das competências, como acções observáveis, são governados por outras acções, inobserváveis: as acções mentais”.
Assim, capacidade e actividade correspondem a duas formas de acção: a acção mental, implícita, não observável, correspondente à cognição; e a acção manifesta, explícita, observável, correspondente à actividade. Ainda que sejam mecanismos específicos, capacidade e actividade ou cognição e acção formam uma unidade. Nunca e em nenhum momento esta dicotómica acção (Mental e Observável) deve estar separada.
Não obstante, os referenciais curriculares fundem esta unidade. Além disto, afirmar que alguém deve ser ‘capaz de’ não diz nada do conteúdo dessa capacidade.
Conforme afirma MERTENS (1996, p. 92), “…as listas de competências nas quais se tenta basear o currículo não dizem nada sobre o que devem adquirir os estudantes para serem capazes de fazer o que se pretende que eles façam
Por isto, não se trata de ensinar competências, mas sim de desenvolve las e nesse desenvolvimento, é preciso aceitar que competência é uma consequência e não o conteúdo em si da formação, e que os efeitos pretendidos com a prática pedagógica podem se constituir no máximo como horizontes, cujos limites se alargam permanentemente na proporção de novas aprendizagens.
Sendo assim, o currículo mantém-se baseado em saberes de referência, oriundos dos campos das ciências e das profissões. Pelas críticas apresentadas anteriormente, o chamado ‘currículo por competências’ dificilmente escapa da condição de ser um constructo elaborado com base em objectivos de ensino e de aprendizagem, diferindo muito pouco da lógica que orientou sua própria gênese: a adequação da educação aos princípios da eficiência social.
Criticas ás Teorias
RAMOS (2005) discute a possibilidade de construção de uma matriz crítico-emancipatória, cujos fundamentos teóricos estariam no pensamento crítico-dialéctico, pretendendo não só resinificar a noção de competência, atribuindo-lhe um sentido que atenda aos interesses dos trabalhadores, mas também apontar princípios orientadores para a investigação dos processos de trabalho. Em convergência com esta proposição, Ramos (2005) apresentou como princípio epistemológico do currículo a compreensão totalizante dos processos de trabalho, incorporando na análise, além da dimensão científico-tecnológica, as dimensões ético-políticas, sócio-históricas, ambientais, culturais e relacionais do trabalho.
Ocorre, entretanto, que essa perspectiva, por se tratar de uma concepção teórico-metodológica e ético-política da formação de trabalhadores, não é redutível a metodologias de análises de processo de trabalho. Ademais, a descrição precisa, definitiva, exaustiva, de qualquer processo de trabalho, não capta suas múltiplas determinações e, menos ainda, a complexidade da acção humana que está em jogo na sua realização. Concluímos, então, que a possibilidade virtuosa de relacionar as actividades pedagógicas às situações de trabalho e à prática social em geral está no horizonte e, ao mesmo tempo, no limite em que essas relações possam se constituir em referências para a formação plena dos trabalhadores, orientadas pela ampliação de seus conhecimentos, capacidades e actividades intelectuais.
DELUIZ, N. O modelo das competências profissionais no mundo do trabalho e na educação: implicações para o currículo. Boletim Técnico do Senac, mar., 2001 (Número especial)
MALGLAIVE, G. Competência e engenharia de formação. In: PARLIER, M. & WITTE, S. (Orgs.) La Competénce: mythe, construction ou realité? Paris: L'Harmattan, 1994.
MERTENS, L. Sistemas de Competência Laboral: surgimiento y modelos. México: Cinterfor/OIT, 1996. (Resumo Executivo) RAMOS, M. Possibilidades e desafios na organização do currículo integrado. In:
FRIGOTTO, G.; CIAVATTA, M. & RAMOS, M. (Orgs.) Ensino Médio Integrado: concepção e contradições. São Paulo: Cortez, 2005.
TANGUY, L. Racionalização pedagógica e legitimidade política. In: TANGUY, L. & ROPÉ, F. (Orgs.) Saberes e Competências: o uso de tais noções na escola e na empresa. São Paulo: Papirus, 1997, p. 25-68.


[1] Mestre de Ciências de Educação pelo ISEDEF – Infulene, Matola, Maputo.

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