domingo, 6 de outubro de 2019

Construção, Transmissão ou Desenvolvimento das Competências dos Professores


Construção, Transmissão ou Desenvolvimento das Competências dos Professores



Constâncio Tsambe[1]


Resumo
O conceito de competência é definido e interpretado de múltiplas formas, quer entre campos científicos diferentes, quer mesmo dentro de um único desses campos. Defende – se no presente artigo que há a necessidade de forjarmos uma acepção especializada de “competência” em educação e em formação de professores, em torno da qual os investigadores possam convergir e que contribua para intervenções mais consistentes dos profissionais. A construção e o desenvolvimento das competências dos professores no contexto dos actuais programas portugueses de formação são discutidos e é defendida a ideia de que, mais do que da estrutura desses programas, importa cuidar do modelo ou modelos que os inspiram e das estratégias que são postas em marcha.

Palavras – chave: Competência, Competência profissional, Conhecimento profissional, Formação de Professores.

Introdução
Como sucede com quase todos os conceitos em educação, também o conceito de “competência” é susceptível de múltiplas formas de definição e de interpretação, quer nos coloquemos numa perspectiva sincrónica e consideremos o seu uso num mesmo tempo mas em espaços diversos, quer observemos a evolução histórica dos sentidos dominantes que foi adquirindo. É por causa dessa susceptibilidade que se entra na falta de consenso sobre se as competências aos professores são construídas, transmitidas ou desenvolvidas.  
É nesta perspectiva que á competência se compreendem os epítetos de conceito “nómada”, “volátil”, “bastardo” com que tem sido qualificado, como recorda Reis (2002, p. 26).
Para alguns autores, seria então o caso de, em Educação, se dever pura e simplesmente abandonar um termo que se presta a tão grandes confusões. Obviamente não nos reconhecemos em tal posição, e daí este artigo com o qual pretendemos, modestamente, contribuir para a análise crítica e a discussão do conceito de competência profissional dos professores e, simultaneamente, dar nota, e que nota, dos resultados de alguns trabalhos recentes de investigação que se orientaram para esta problemática.
Utilizada pela psicologia, pela linguística, pelas ciências do trabalho, pelas ciências da educação e da formação, a noção de competência muda de sentido consoante o domínio em que é utilizada. Embora nesta oportunidade pretendamos focar o conceito de competência quando usado a propósito da profissão docente e da formação para essa profissão, será inevitável referir outros campos de saber científico e de acção onde o mesmo é utilizado, até para operarmos a sua distinção, por oposição, no campo que nos interessa.
Desta forma usando um método bastante simples, mas útil e eficaz, para a produção de artigos científicos, que é Pesquisa Bibliográfica, produzimos o presente artigo que cremos que será bastante útil para ajudar os professores da minha instituição técnica do Ramo Comercial e Industrial e outros ávidos em compreender este novo paradigma de ensino que constitui a aposta (precipitada?) do nosso Ministério, o da Ciência Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional.
Faremos um a abordagem genérica mas caberá a cada leitor criar uma transversalidade com especificidades Políticas, Sociais e Técnicas de cada situação.    
Neste trabalho arrolamos os seguintes aspectos que achamos pertinentes: Competências e Educação, Teorias de aprendizagem e características para a produção de programas “P/CBTE” (Performance/Competency Based Teacher Education) e “CBTE” (Competency Based Teacher Education) em alguns Países da Europa e América, que devem, sublinha – se DEVEM ser observadas, antes da implementação do “CBT” (Compentence Based Training) ou simplesmente “CBC” (Currículo Baseado em Competências), ministrado de forma MODULAR, apostado pelo nosso Ministério.
Ao longo do presente trabalho, também abordados critérios para descrever e avaliar os programas baseados nas competências, tratamos da questão das micro – competências às competências genéricas, viajamos em torno das relações que se estabelecem entre a qualificação o conhecimento e a competência, e finalmente navegamos na formação e competências profissionais dos futuros professores.


1.      Competências e Educação

O conceito de competência ressurgiu em força no campo educacional, nos anos 90 do século passado, relacionado com a aprendizagem dos alunos, a formação dos professores/formadores e a formação profissional em geral, mas contribuindo para discurso formativo dos professores e dos formadores.
As competências se Constroem? Se sim, como se constroem? Se não, porque não se constroem?
As competências se Transmitem? Se sim, como se transmitem? Se não, porque não se transmitem?
As competências se Desenvolvem? Se sim, como se desenvolvem? Se não, porque não se constroem?
Quais as mais importantes competências no desempenho docente? Podem as competências ser avaliadas? E, se sim, como? Afinal, de que falamos quando falamos em competências? Tais são algumas das questões que hoje estão no centro de muitas discussões tanto na acção profissional dos professores em relação aos seus alunos como na formação para a docência e na gestão das carreiras docentes, sobretudo no Ensino por Competências aposta do Goveno de Moçambique para a Educação Profissional.
Uma primeira aclaração que nunca é despiciendo tentar fazer, embora de há muito tenha sido assinalada, é a da diferença entre o conceito no singular (a competência) e o conceito usado no plural (competências). Na primeira forma, a competência, o conceito remete para a qualidade que separará profissionais competentes de profissionais incompetentes, profissionais mais e profissionais menos competentes.
Nesta acepção, “uma competência” é tomada como um traço global inerente à acção do indivíduo ou do grupo profissional, traço sobre o qual é possível emitir um juízo de valor. Já na forma plural, “as competências”, remete nos para um certo número de traços particularizáveis evidenciados na acção, no calor da acção, no momento da acção pedagógica, que podem ser observados e descritos sem que necessariamente se lhes tenha que atribuir um valor. Em exemplos, como o professor/formador “questiona os alunos”, “diversifica os materiais”, “usa recursos tecnológicos diferenciados”, “actuação do professor/formador perante uma situação anómala no decorrer da aula”. Pois,   
“…o pensamento reflexivo do(a) professor (a), no enfrentamento da das situacoes divergentes,da prática, se densevolve através da competência de reflectir sobre a accao, criando uma nova realidade, experimentando, corrigindo e inventando através do diálogo que se estabelece com essa mesma realidade. Portanto o professor se devolve através da reflexão, reflexão na acção, reflexão sobre a reflexão na acçao”. (Schon (1987) citado por Pimenta e Ghedin, 2005,  p. 163).

O somatório destas competências entendidas em sentido analítico tão pouco habilitará por si só à emissão de juízos de valor sobre a competência global de um profissional. Dizer, então, a competência, em sentido global, ou uma competência, em sentido analítico ou particular, faz toda a diferença em termos conceptuais.

2.      Os Programas P/CBTE (Performance/Competency Based Teacher Education)

Existe um consenso alargado entre os especialistas de movimento de formação baseada nas competências teve o seu início nos EUA, no campo específico da formação de professores, nos anos 60 do séc. XX, movimento que posteriormente viria a alastrar a outros campos de formação profissional.
Embora se possam encontrar casos de formação profissional baseada nas competências desde os anos 20, no quadro da aliança entre desenvolvimento industrial e formação profissional, parece fora de dúvida que foi sob a influência da psicologia behaviorista triunfante nos anos 50 que se assistiu, sucessivamente, a reformas dos currículos escolares de forma a centrá – los em objectivos comportamentalistas de aprendizagem (corporizando o que ficou popularizado como pedagogia por objectivos) e às reformas dos programas de formação de professores centrados ou baseados na aquisição de competências entendidas como comportamentos observáveis que tivessem uma correlação positiva com o aumento ou a melhoria dos resultados dos alunos.
Discutiu – se então (e, em outros termos, ainda hoje se discute) se uma competência é o mesmo que uma performance, mas na acepção dominante em que a competência era tomada até aos anos 80 (comportamento directamente observável), convenhamos que ambas se confundiam efectivamente. E, desse modo, os programas que começaram por se designar uns como CBTE, outros como PBTE, rapidamente passaram a ser conhecidos mais simplesmente como P/CBTE (Performance/Competency Based Teacher Education), como se de uma só entidade se tratasse.
O sucesso do movimento, particularmente assinalável nos EUA e no Reino Unido entre os anos 60 e 80, deveu – se em boa parte ao apoio e à consagração que recebeu das políticas educativas levadas a cabo pelos governos respectivos. Swanchek e Campbell (1981) sintetizaram as características dos programas P/CBTE nos seguintes traços:

Ñ       a especificação precisa das competências ou comportamentos a serem aprendidos;
Ñ       a modularização da instrução[2];
Ñ       a avaliação e o feedback;
Ñ       a personalização do ensino;
Ñ       a experiência de campo.

A selecção das competências a adquirir era feita de entre relacionamento que se estabelece entre Empresa e a Escola.
Nesta ordem, a escola busca na empresa, através de uma comissão, de um órgão, de um comité, as competências necessárias a serem desenvolvidas, e desenvolve – as durante as aulas através de metodologias apropriadas, de práticas docentes viradas para o efeito, de saberes mediados pelo professor/formador. Portanto, as competências não se transmitem.
Para as autoridades governamentais, a formação centrada nos comportamentos observáveis dos professores pode ser uma garantia de maior exigência em termos de qualificação e certificação para a entrada na profissão, se as instituições do ensino superior, passassem a aderi – lo de uma forma eficiente e eficaz, com abrangência territorial e investimentos em termos de equipamento, material outros recursos para a formação docente.
Mas os problemas também existiam entre as instituições que se mostravam dispostas a aderir ao movimento, outras que nem estavam preocupadas ou comprometidas e outras que tanto desejavam mas não tinham técnicas para começar: Por exemplo

“um dos problemas persistentes enfrentados pelas instituições que pretendem redefinir os seus programas de formação de professores na direcção de actividades baseadas na competência é a falta geral de definição e de critérios sobre o que constitui exactamente um programa de formação de professores baseado nas competências” (Perrenoud, 2002, p. 178).

Nesta ordem de ideias, torna – se difícil ás instituições de ensino construírem competências. Podemos arriscar dizendo, as competências não se constroem.
O mesmo autor, perrenoud, viria mais tarde, a considerar que se mantinham válidos os critérios para descrever e avaliar os programas baseados na competência, desenvolvidos pelo “National Consortium of Competency Based Education” (Conósorcio Nacional da Educacao Baseada em Competencias), nos anos 70.
Trata – se de, como considrera Teixeira (2006, págs. 79-90), um conjunto de vinte e quatro critérios que vale a pena aqui transcrever na medida em que iluminam de modo muito preciso o que foi (é?) o movimento de inspiração behaviorista de formação de professores baseado em competências.

3.      Critérios para descrever e avaliar os programas baseados na competência.

3.1.  Especificações das Competências
1.      As competências baseiam se numa análise do papel ou papéis profissionais e/ou numa formulação teórica das responsabilidades profissionais.
2.      As afirmações sobre as competências descrevem resultados esperados da performance de funções relacionadas com a profissão ou aqueles conhecimentos, skills e atitudes que se considera serem essenciais para a performance dessas funções.
3.      As definições das competências facilitam uma avaliação referida ao critério.
4.      As competências são tomadas como preditores potenciais da eficácia profissional e são sujeitas a procedimentos de validação contínua.
5.      As competências são especificadas e tornadas públicas antes da instrução.
6.      Os formandos que completam programas de formação baseada nas competências mostram uma vasta gama de perfis de competências.

3.2.  Instrução

7.      O programa de instrução deriva de e está articulado com competências específicas.
8.      A instrução que suporta o desenvolvimento de uma competência está organizada em unidades com uma extensão tal que possa ser gerida.
9.      A instrução é organizada e concretizada de modo a acomodar o estilo de aprendizagem do formando, a sua preferência por uma dada sequência, o ritmo e as necessidades detectadas.
10.  A progressão do formando é decidida após ter demonstrado uma competência.
11.  A extensão do progresso do formando é dada a conhecer a este ao longo do programa.
12.  As especificações da instrução são revistas e modificadas com base nos dados do feedback.

3.3.  Avaliação

13.  As medidas de uma competência estão validamente relacionadas com a definição dessa competência.
14.  As medidas de uma competência são específicas, realistas e sensíveis a flutuações.
15.  As medidas de uma competência discriminam, com base em padrões (standards), o cenário para a demonstração das com petências.
16.  Os dados proporcionados pela medição das competências são utilizáveis e úteis para a tomada de decisões.
17.  As medidas e os padrões das competências são especificados e tornados públicos antes do processo de instrução.

3.4.  Governo e Gestão

18.  São produzidas, Decretos, Leis, Declarações Políticas escritas para orientar, em termos gerais, a estrutura, o conteúdo, a operacionalização e a base de recursos do programa.
19.  As funções, responsabilidades, procedimentos e mecanismos de gestão são definidos claramente e tornados explícitos, para todos os membros das comunidades que estarão sujeitos aos Programas que no novo paradigma são designados de Módulos de Ensino Baseado em Competência.

3.5.  Programa global

20.  O pessoal docente associado ao programa tem a intenção de modelar as atitudes e os comportamentos desejados da parte dos estudantes do curso.
21.  São tomadas medidas para orientação, avaliação, aperfeiçoamento e recompensa do pessoal docente.
22.  A investigação e as actividades de disseminação são parte integrante de todo o programa de instrução.
23.  É necessária flexibilidade institucional em relação a todos os aspectos do programa.
24.  O programa é planeado e operacionalizado como um sistema completamente unificado e integrado.

            Estes vinte e quatro critérios para descrever e avaliar os programas baseados competências, demonstram claramente que as competências desenvolvem com um trabalho árduo desenvolvido por professores superior e altamente competentes.
Abaixo temos um esquema que elucida de um aforma clara a construção ou desenvolvimento de competências:

Portanto, as competências, podem ser construídas, nunca transmitidas mas sempre desenvolvidas.
Apesar de longo, este quadro tem o mérito de tornar extraordinariamente claros o conceito de competência adoptado, os papéis atribuídos aos formandos, aos formadores e às instituições de formação, bem como o lugar reservado à investigação.
Os Conhecimentos, Habilidades e Atitudes dos formandos, representar uma concessão àqueles que entenderiam excessivo considerar a competência como sendo exclusivamente da ordem da performance. Nesse aspecto, já anteriormente Mesquita (2005, p. 95) tinha sido nítido no mesmo sentido, ao afirmar que “a avaliação de uma competência exige a performance como primeira evidência, mas também toma em consideração o conhecimento”.

4.      Das micro – competências às competências genéricas

As críticas ao conceito de competência de recorte behaviorista e aos programas de formação a ele as sociados foram permanentes mas tornaram se particularmente vigorosas a partir dos anos 80.
Segundo Fryxell (2003, p. 74) dois argumentos foram mais persistentemente invocados:
1.       A inadequação da definição analítica das competências para retratar o perfil dos profissionais mais bem sucedidos, perfil esse que não se limitaria ao mero somatório de competências isoladas;

2.       A falta de evidências científicas que corroborassem a superioridade dos programas baseados nas competências em relação a outros.

Entretanto, estudos realizados na Europa continental em diversas áreas da formação profissional que não exclusivamente a de professores foram pondo em evidência que os profissionais excelentes apresentavam um conjunto de competências genéricas ou globais bem mais importantes para explicar o seu sucesso do que as competências analíticas muito numerosas a que a análise das funções laborais tinha conduzido.
Esta abordagem pelas competências genéricas focou sobretudo os modos como os profissionais se tornam competentes e destacou um conjunto de qualidades pessoais relevantes, para além das características científico – técnicas inerentes à acção.
Em lugar de centenas ou mesmo de milhares de competências associadas a um dado desempenho profissional, nesta corrente foram identificadas listas bem menos numerosas de competências genéricas (geralmente, entre oito e quinze) que estariam em condições de retratar o perfil de profissionais competentes.
Uma dessas listas, proposta por Lousada (2006, p. 76), foi construída a partir do estudo de uma amostra de cerca de 2000 gestores que actuavam em 41 tipos de empregos diferentes. A título de exemplo, vejam se as doze competências que foram enunciadas:

1.      Preocupação com o impacto
2.      Uso diagnóstico de conceitos (Gerais e Específicos)
3.      Orientação para a eficiência
4.      Pro – actividade
5.      Conceptualização
6.      Auto – confiança
7.      Uso de apresentações orais
8.      Gestão de processos grupais
9.      Prática de um poder socializado
10.  Objectividade perceptiva
11.  Auto – controlo
12.  Energia e adaptabilidade

O mais importante aqui seria como estas competência poderiam ser observadas e avaliadas, como aponta Fryxell, acima.
Mais do que no movimento CBE, nesta perspectiva de adopção das competências genéricas discutiu – se se estas seriam inactas, aprendidas ou ambas as coisas. O que não obstou ao desenvolvimento de programas de formação orientados expressamente para a construção e o desenvolvimento de competências deste tipo, em relação a muitas profissões.
A este propósito, refira – se, por exemplo, a lista de dez competências para Ensinar no Ensino Médio, em torno das quais se organizou o programa de aperfeiçoamento dos professores e professoras de Genebra e de que Perrenoud (2000) dá notícia detalhada:

1.      Organizar e dirigir situações de aprendizagem
2.      Administrar a progressão das aprendizagens
3.      Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação
4.      Envolver os alunos na sua aprendizagem e no seu trabalho
5.      Trabalhar em equipa
6.      Participar na administração da escola
7.      Informar e envolver os pais
8.      Utilizar novas tecnologias
9.      Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão
10.  Administrar a sua própria formação contínua.

Prosseguindo o mesmo autor (Perrenoud, 2000) aponta que, a ausência ou deficiência de uma destas dez (10) competências, implica que o professor ainda não está capacitado (não possui competências) pra ensinar. No entender de Perrenoud, (2000) deve desenvolver a competência que lhe falta, ou no decorrer da sua profissão ou na instituição de ensino de formação, de modo a ser certificado para essa nobre função. 


5.      Qualificação, Conhecimento e Competência: Que Relações?

Estrela, et all. (2002, p. 55) defende a tese de que a noção de qualificação profissional foi evoluindo nas últimas décadas até se aproximar muito da de competência.
Num primeiro momento (anos 50 a 80), a qualificação era definida como “o conjunto de capacidades e de conhecimentos socialmente definidos e requeridos para realizar um determinado trabalho” (Lousada, 2006, p. 14). Tratava – se de entender a qualificação como conjunto de qualidades evidenciadas pelo sujeito antes de desenvolver uma acção profissional — concepção que, segundo Jonnaert (2000), sustenta uma visão instrumentalista e prescritiva da profissão (e, por inerência, da formação para a profissão).
Num segundo momento (anos 80 até os anos 90), a qualificação passou a ser definida preferencialmente como a capacidade individual para dominar uma dada situação de trabalho, mobilizando cada profissional, o seu próprio potencial. Há aqui já uma nítida aproximação à noção de competência, pela associação do campo de trabalho concreto à evidência da qualificação do profissional.
Num terceiro momento (sobretudo desde os anos 90), a qualificação é definida como aquilo que acompanha a estruturação da acção. O fim e o espaço da acção do profissional, bem como a autonomia que este tem, passam a fazer parte integrante da noção de qualificação. Segundo De Terssac (1996, citado por Bernardes, 2005, p. 15), a competência ultrapassará, contudo, mesmo esta terceira acepção de qualificação, por representar “tudo o que é posto em jogo numa acção e tudo o que permite dar conta da organização da acção”.
As competências são então definidas por Perrenoud como as formas como os sujeitos gerem os seus recursos cognitivos e sociais na acção e sobre a acção, numa dada situação.
É muito frequente encontrarmos quem considere que, sempre que se fala em competências, em formação baseada nas competências, isso significa o menosprezo e a subalternização do conhecimento, em favor da mera aprendizagem e treino de performances, com um sentido utilitário imediato. Não. Não se trata de desvalorizar o conhecimento. A evolução do conceito de competência que acima acabámos de evocar retira legitimidade a este ponto de vista. Tal posição não é sequer autorizada à luz da concepção comportamentalista das competências e muito menos à luz das concepções sobre as competências de inspiração construtivista.
Umas e outras aceitam, ainda que com graus diferentes de relevância atribuída, que o conhecimento e a compreensão, e o desenvolvimento de disposições cognitivas de ordem mais elevada, de análise, de síntese, de avaliação, de crítica, de pensamento divergente que os currículos de educação escolar são supostos estimular e fazer desenvolver, são pilares fundamentais da construção das competências, tanto mais quanto maior for a complexidade dos problemas a resolver e/ou da profissão a desempenhar.
O que ocorre, e é importante assinalar é que nas formações orientadas para o desenvolvimento de competências, a conceptualização que se fizer destas bem como a selecção das que devem ser desenvolvidas num dado cenário de formação, subordinam a definição dos objectivos de aprendizagem, a selecção e organização dos conteúdos e, especialmente, as metodologias a utilizar.
Os conhecimentos que os currículos proporcionam não valem por si mesmos, mas pela possibilidade de ajudarem a desenvolver as competências de cada sujeito e de serem, por este, investidos na acção. Bernardes (2005), na sequência de muitos outros autores que se dedicaram ao exame e análise da relação entre conhecimento e competência, oferece algumas perspectivas que consideramos interessantes para a discussão dos conceitos de conhecimento e de conhecimento profissional.
O autor apercebeu se de que só parte daquilo que um profissional competente faz, encontra raízes no programa de formação orientado para o desenvolvimento de competências que lhe possa ter sido proporcionado. Haverá largas áreas do saber – fazer omissas nos programas de formação, e mesmo quando há coincidências, o conhecimento comum a ambos os cenários — o da formação e o da acção profissional — é estruturado, nomeado e percebido de formas diferentes.
A prática profissional reclamará o concurso, ora de sequências fixas de acções para enfrentar situações de rotina, ora de combinações originais de acções para enfrentar e resolver problemas novos ou inesperados, situações estas últimas em que avulta a competência para tomar decisões pertinentes.
A situação pode ainda variar em complexidade consoante o problema a resolver esteja bem definido ou se apresente mal definido nos seus contornos. Falar simplesmente em “teoria” e “prática”, como tradicionalmente se fez e, muitas vezes, por facilidade e rotina, se continua ainda a fazer em muitos discursos relativos à formação, é redutor da complexidade dos conhecimentos postos em jogo na acção profissional. As teorias (e não a teoria) que o profissional usa, integram seja as teorias com valor universal que a ciência produziu, seja teorizações que esse profissional construiu — generalizações que revestem a forma de teorias implícitas, crenças, convicções.
Seguindo estas reflexões, pensamos que predo mina hoje um cenário bem distinto do que prevaleceu nos anos 60 80 (ainda que as concepções deste período não tenham desaparecido por completo), na medida em que parece incontornável:

a.      Assumir que não há competências sem conhecimento e sem conhecimento profissional, mesmo que parte deste seja tácito ou im plícito;
b.      Assumir que o conhecimento profissional é mais complexo do que a dicotomia tradicional conhecimento teórico conhecimento prático levaria a pensar;
c.       Assumir que o conhecimento profissional é ou pode ser fundamento e resultado do exercício de competências, seja para os que se preparam para a profissão, seja para os pro fissionais já em exercício.

Segundo Burnier, (2001, p. 72) “…estamos ainda na fase de testar diferentes hipóteses sobre quais os tipos de conhecimento e de conhecimento profissional que melhor servem o propósito de contribuir para a construção das competências dos professores…”, com alguns resultados por vezes espantosos em relação ao que algumas ideias persistentemente repetidas ao longo de décadas nos tinham levado a acreditar.
A distinção entre profissões simples e profissões complexas, interessa – se, a certo passo, especialmente pelo tipo de competências necessárias ao desempenho das profissões complexas.
Define estas últimas, “…como aquelas profissões em que os profissionais devem enfrentar o desconhecido e a mudança permanente…” Burnier, (1997, p. 21).
Inscrevendo se na linha de pensamento dos que preferem definir as competências como um conjun to pouco numeroso de traços genéricos, Burnier (1997, pp. 37 94) identifica seis competências inerentes aos profissionais que sabem gerir a complexidade:

1.      Saber agir com pertinência;
2.      Saber mobilizar num dado contexto;
3.      Saber combinar;
4.      Saber transpor;
5.      Saber aprender e saber aprender a aprender;
6.      Saber empenhar – se.

Não só se está longe das listas de competências analíticas propostas no âmbito do movimento P/CBTE, como a definição de cada competência associa explicitamente o saber ou conhecimento, a acção e o contexto da acção. Contextos e situações de trabalho que, como se disse, são marcados pela indeterminação, pela incerteza, muitas vezes também pela urgência e, sempre, pela necessidade de encontro de respostas que tenham algum grau de originalidade em relação ao já sabido, ao já feito anteriormente. Importa ainda sublinhar a natureza da última das competências listadas — saber empenhar se — que remete para um domínio eminentemente social ou socio – afectivo, onde a motivação, o interesse, a vontade do profissional, avultam.
“uma competência faz, no mínimo, referência a um conjunto de recursos que o sujeito pode mobilizar para tratar uma situação com sucesso”. Desta concepção importa reter que:

1.      A competência não se refere exclusivamente a recursos cognitivos, mas também a uma sé rie de outros recursos de origem diversa;
2.      A competência está subsumida numa acção contextualizada — não é uma disposição do sujeito anterior à acção (o que a distingue de capacidade e de saber – fazer genérico);
3.      Entre os recursos que o sujeito mobiliza na acção poderão estar disposições inatas;
4.      A mobilização de recursos pelo sujeito é feita segundo redes operatórias e não por simples adição ou numa lógica de sequência linear;
5.      A competência não se confunde, portanto, com a performance.

Parte dos programas educativos e formativos que visam o desenvolvimento de competências dos alunos/formandos dirigir – se – ão apenas à promoção de competências virtuais — disposições que poderão vir a ser activadas pelo sujeito no futuro, sem se saber bem onde nem quando. Outros programas lidam com a promoção de competências efectivas — ou seja, a situação formativa incorpora cenários reais ou simulados onde o sujeito deve enfrentar e resolver com êxito problemas de acção contextualizados.

6.      Formação e competências profissionais dos futuros professores

A digressão breve que acaba de ser feita por algumas etapas marcantes da evolução do conceito de competência, até à reclamação contemporânea de um significado específico do campo das ciências da educação, ajuda a examinar a uma nova luz alguns dos velhos problemas com que nos defrontamos recorrentemente na formação de professores.
A formação profissional de professores é, por definição, uma formação compósita para a qual concorrem diversas componentes. Se admitirmos que a competência ou as competências só se verificam na acção profissional contextualizada (ponto de vista que defendemos), há que admitir que nem todas essas componentes da formação estejam orientadas, de forma imediata, para a construção e o desenvolvimento de competências dos professores. O que não significa que não se deva discutir estratégias e condições para uma reorientação dos programas de formação de forma a que todas as componentes contribuam efectivamente para a construção das competências necessárias aos profissionais do ensino.
No caso português, segundo Barreira (2006, p. 67) a “nova legislação sobre habilitações para a docência consagrou seis componentes de formação inicial, cuja relevância passará pela superação de problemas…” com que nos temos defrontado e que estão devidamente identificados.
A componente de “formação na área da docência”, que contempla a aprendizagem do conhecimento relativo aos futuros conteúdos a ensinar, organiza – se com independência em relação ao uso que esse conhecimento virá a ter por parte daqueles que irão ser professores.
 Continuará a repetir – se muito provavelmente aquilo que alguns trabalhos de investigação mostraram em relação ao passado.

Para Barreira (2006, p. 79):
Ñ       lacunas graves de preparação científica dos professores recém – formados em relação a determinados conteúdos constantes dos programas de ensino;
Ñ       uma relação com o saber mais do tipo “consumidor do saber”, sem nenhuma critica, sem nenhuma reflexão, do que de “produtor” do mesmo conhecimento.
Ñ       Falta, também, do conhecimento pedagógico do conteúdo, noção de que (Estrela et al., 2002, p. 24) fala para “…significar a combinação adequada entre o conheci mento da matéria a ensinar e o modo pedagógico de a fazer aprender pelos alunos.”.
Ñ        Será aqui já o caso de contemplarmos uma segunda componente de formação, a da “didáctica específica”, onde deveria ser procurada essa aliança mais forte e bem sustentada entre a matéria de ensino (sem ignorar a sua natureza epistemológica particular), por um lado, e, por outro, os conhecimentos relevantes sobre os processos de aprendizagem de crianças, jovens e adultos, públicos diferenciados com os quais os professores são chamados a trabalhar regularmente.

Outras componentes de formação como as de “formação educacional geral” e “formação cultural, social e ética”, formalmente mais próximas do desempenho profissional específico de um professor, poderão não conduzir ao desenvolvimento de competências profissionais efectivas se nelas também prevalecer a lógica que acima referimos como afectando pelo menos parte, se não mesmo boa parte, das formações superiores.
Alguns trabalhos de investigação têm assinalado lacunas de formação no âmbito das Ciências da Educação, área na qual nós estamos preocupados com ela, nos apoquenta bastante devido aos novos e complexos paradigmas que surgem nos processos de educação, nosso ganha – pão.
Não estamos alheios a desarticulações entre os diversos saberes que proporcionam, desfasamentos temporais entre o momento em que esses saberes são adquiridos e o momento em que devem ser usados ao serviço das práticas profissionais, e, consequentemente, falta de significado desses saberes para os formandos por não percepcionarem a sua relevância para o campo de trabalho profissional.
Do mesmo modo, poucos têm sido os programas de formação que se ocupam deliberadamente do desenvolvimento pessoal, social e ético – deontológico do formando. Por várias razões, dentre ao quais os Pressupostos Filosóficos, Sociológicos, e fundamentalmente os Políticos. Em regra, não são reconhecidos nem tidos em conta nos espaços formativos os pré conceitos e preconceitos, as crenças, as atitudes e os valores que os estudantes desenvolveram enquanto alunos – Futuros Professores –, muito antes de terem decidido ser professores.
Quanto à intenção de formar profissionais reflexivos tem, depois, pouca tradução ao nível das estratégias e métodos usados na formação, levando a presumir que, na melhor das hipóteses, a reflexividade de que se fala não ultrapassará a área das competências do professor como um técnico que aplica conhecimentos que outros produziram.
Resta referir as componentes de “iniciação à prática profissional” e de “formação em metodologias de investigação educacional” como últimos redutos de que se deverá legitimamente esperar que proporcionem o desenvolvimento de competências necessárias ao desempenho de uma profissão complexa.
Para que tal aconteça, importa superar as limitações, por vezes graves, que os antigos estágios apresentavam:

Ñ        falta de articulação entre instituições e formadores do ensino superior e do ensino não superior;
Ñ        uma visão predominantemente técnica da acção do professor;
Ñ        a falta de formação especializada de muitos supervisores e orientadores para a função que estão a desempenhar. (Reis, 2006, p. 76).

Segundo Schön (2000, p. 23) “…iniciação dos futuros professores nas metodologias de investigação educacional poderá, não vir a ter a relevância esperada para o desenvolvimento da autonomia dos mesmos…” Isso devido a razões de vária ordem, como as referenciadas por Fryxell (2003, p. 34), “…caso a formação nessa área se apresentar afastada da procura de soluções para problemas da prática profissional real com que cada formando se esteja a confrontar num dado contexto escolar concreto.”









Considerações Finais

Por muito interessante que seja (e é) observar as componentes da formação dos professores que num dado momento histórico são consideradas necessárias para a construção e o desenvolvimento de competências, aquilo que se nos afigura como mais elucidativo da profissionalidade que efectivamente se perspectiva e estimula é o modelo conceptual e a estratégia que se adopta, não em abstracto mas no campo das práticas de formação efectivamente postas em marcha.
Também as competências das instituições de formação dos professores e dos formadores serão o conjunto de recursos de diversas naturezas que umas e outros podem mobilizar e mobilizam de facto para tratar com sucesso o problema da formação dos professores como pro fissionais competentes.
Só com um professor formado de forma competente, podemos ter um produto igualmente competente. O Contrário, recomenda – se que se reveja a implementação do CBT, nos Institutos Técnicos Profissionais de Moçambique. No nosso entender, o aspecto mais revevante que observou – se para a implementação deste modelo, foi sem sombra de dúvidas o PRESSUPOSTO POLÍTICO. Descurando outros pressupostos, ligados por exemplo ao informe e o envolvimento dos pais e encarregados de educação, e muito menos o professor na confrontação com os deveres e os dilemas éticos da profissão docente. 
Das observações feitas dos seminários que participamos cujo tema principal era o Ensino Baseado em Competências, constatamos que apenas existe, vontade de uma elite de pessoas representando o poder político que ávidos em ver implementadas as Políticas Públicas de outros pontos do mundo, provavelmente para satisfazer seus desejos lascivos.
Os professores tornam – se, professores alimentando – se das Teorias Tradicional e Tecnicista e, reforçadas pelas Estruturas Físicas das Instituições, Normas Legais e Burocráticas, Critérios utilizados pelas Autoridades Administrativas e por Atitudes e Modos de Pensar Tácitos na sociedade, na vida individual e em todo o Sistema Educacional, concretamente nas EP (Escolas Profissionais). E, cabe ao Estado formar o professor para gerir devidamente a Educação profissional. 
Terminamos dizendo: Nosso pensamento é este porque, nunca deveríamos pensar doutra maneira, pela maneira como as coisas estão sendo pensadas.


Referências Bibliográficas

Barreira, G. M. J. (2006). Concepções de professores cooperantes sobre a profissão docente e as competências profissionais do professor do 1º ciclo. Dissertação de Mestrado. Lisboa: FPCE UL.
Bernardes, H. R. (2005). O conhecimento profissional dos professores: natureza e fontes. Contributo para o seu estudo. Dissertação de Mestrado. Lis boa: FPCE UL.
Burnier, Suzana (2001), Pedagogia das competências: conteúdos e métodos, Boletim Técnico do SENAC – Rio de Janeiro, volume 27, n.º 3, Setembro a Dezembro.
Estrela, M. T.; Esteves, M. & Rodrigues, A. (2002). Síntese da Investigação sobre Formação Inicial de Professores em Portugal (1990 2000). Porto: Porto Editora — INAFOP.
Fryxell, M. M. C. (2003). Representações dos professores sobre os seus saberes profissionais e sobre a construção desses saberes. Dissertação de Mestra do. Lisboa: FPCE UL.
Lousada, L. M. X. B. (2006). Representações da competência docente. Comparação das dimen sões identificadas por professores principiantes e experientes. Dissertação de Mestrado. Lisboa: FPCE UL.
Mesquita, E. C. (2005). Representações sobre a profissão docente e das competências para a docência. Estudo exploratório. Dissertação de Mestrado. Lisboa: FPCE UL.
Perrenoud, Phillippe. (2000). Dez Novas Competências para Ensinar. Porto Alegre: Artmed.
__________________ (2002). A prática reflexiva no oficio de professores: profissionalização e razão pedagógica. São Paulo: Artmed, 323p.
Reis, A.V. (2006). Professores reflexivos — Concepções dos supervisores da prática pedagógica. Es tudo exploratório. Dissertação de Mestrado. Lis boa: FPCE UL.
Teixeira, C. A. P. (2006). Concepções de supervisores e cooperantes — a formação e as competências para a supervisão pedagógica na formação inicial de professores do 2º ciclo do ensino básico. Dissertação de Mestrado. Lisboa: FPCE UL.
Schön, Donald A. (2000). Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Trad. Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 256p.


[1] Mestre em Ciências de Educação
[2] Trata – se de um modelo de estruturação do conteúdo da formação que se caracteriza pela divisão de um dado programa em pequenas unidades autónomas ou semi – autónomas de aprendizagem, organizadas operacionalmente, com fortes repercussões quer nas metodologias de aprendizagem, quer na avaliação quer na organização escolar. O sistema modular a uma nova modalidade de educação escolar, para as Escolas Profissionais.